segunda-feira, 22 de maio de 2017

Como falar ou o que falar para alguém que já perdeu toda a perspectiva de ser, humano?


Por Tiago Navarro

Outro dia me fizeram esta pergunta, e confesso que não soube o que responder; pensei em várias coisas, analisei vários aspectos, mas nada julguei coerente para aquela situação. Primeiro, o contexto da indagação – quando a outra pessoa tem uma forma de pensar próxima da minha, ou quando possui um credo semelhante ao meu, com certeza é extremamente favorável dar-lhe algum consolo; segundo, e não menos importante, é bem provável que a pessoa não quisesse um aconselhamento, talvez quisesse apenas ser escutada.

Achei por bem considerar a segunda possibilidade – a pessoa queria ser ouvida. Tenho notado a crescente quantidade de pessoas que estão ansiando por “ouvidos de ouvir”, saca, aquele “ombro amigo” de fato, com todas as letras, que não questione as nossas resoluções, nem diminua nossas autorregulações. Deve ser por isso que nas rodas de amigos, nas conversas informais nas mesas de bares, e até nos “hoje vai chover” dos elevadores, 2/3 das pessoas comentem estarem frequentando consultórios de psicanalistas, psicoterapeutas, terapeutas, ashrams budistas e/ou hinduístas, casas espiritas, igrejas das mais diversas denominações ou até mesmo compartilhando suas vivências com amigos das redes sociais, ou aquelas páginas de buscadores/despertadores do Instagram, enfim, qualquer meio que possibilite alguma abertura para atender essa demanda.

Voltando à questão do contexto, na hora pensei no caso das pessoas que vivenciam terríveis humilhações no ambiente de trabalho, que sofrem verdadeiras degradações morais por parte de seus patrões, e que, em vários momentos não recebem qualquer tipo de suporte para perceber a situação, ou para se desvencilhar dessas ocorrências; também pensei nos casos de relacionamentos abusivos, onde a humilhação por uma presunção de superioridade, de gênero, de condição financeira, de crença religiosa, ou qualquer outra identificação limitante, tem uma ocorrência assustadora, e quase sempre com desfechos aterrorizantes; quando não por relações mal construídas, por relações que se encontram mal “regulamentadas” ou com percepções distorcidas entre os envolvidos – onde um acredita estar em um relacionamento, ou algo que se aparente como tal, e o outro acredita não estar integrando nenhum tipo de relacionamento; é, as vezes, difícil termos esta consciência de como as coisas são percebidas pelo outro; e com isso, nos conduzimos, e conduzimos as outras pessoas à situações, de um todo indesejável.

Sim, não acredito que coisas assim sejam totalmente premeditadas; acredito que são crenças, ou percepções um tanto quanto limitadas na abrangência dos fatos. Seria algo, do tipo, a minha visão de mim mesmo está confinada a olhar a minha rua pela janela da minha casa, e por isso, eu acredito que isto é a totalidade do que posso entender, através dos meus cinco sentidos, a minha percepção do todo. Então, um dia, recebo um convite para sair de casa, e então percebo que pertenço a algo chamada “rua”, a algo chamado “bairro”, e se tiver muita sorte consigo descobrir que as ruas e bairros fazem parte de algo ainda maior – “a cidade”. Enquanto me mantiver circunscrito à essa visão pequena do meu ser, tratarei o próximo da única maneira que conheço, negando a existência de outras ideias, visões, fatos, relatos, e só aceitando o que me é tangível, real e verdadeiro.

Portanto, se pudesse responder agora, mesmo atrasado, lhe diria isso:
O momento pode ser difícil, o fardo da situação pode ser extremamente pesado, mas saiba, que ainda assim, há um caminho para sair desse labirinto.
Como quem te agride, te agride por ainda ter uma visão limitada de si mesmo, você tem se agredido por – inconscientemente – compartilhar da mesma cegueira (mesmo te incomodando muito sofrer todo esse sofrimento).
No momento que você perceber que – o que você é ou que você acredita estar destinada vir a ser – não é isso (a sensação de não ser mais humano), ou que esta pessoa que você tem visto em frente ao espelho ao longo de todo esse tempo, não te representa, é sinal que você recebeu o convite para dar uma volta em torno da sua situação.
Você perceberá que há outras coisas ao seu redor, outras possibilidades, outras pessoas, outras circunstancias, e que tudo isso possui belezas próprias, e momentos justos de se manifestarem. 
E por fim, deixo contigo um trecho de uma mensagem de Emmanuel por Chico Xavier,

“... guardemos a certeza, pelas próprias dificuldades já superadas, que não há mal que dure para sempre. ”



terça-feira, 2 de maio de 2017

INFLUÊNCIAS DE PENSAMENTOS

Por Tiago Navarro

“Quando o pensamento está em alguma parte, a alma também aí está, pois que é a alma quem pensa. O pensamento é um atributo.” (...)”Não pode haver divisão de um mesmo Espírito; mas cada um é um centro que irradia para diversos lados. Isso é que faz parecer estar um Espírito em muitos lugares ao mesmo tempo. Vês o Sol? É um somente. No entanto, irradia em todos os sentidos e leva muito longe os seus raios. Contudo, não se divide.” (...)”Essa força depende do grau de pureza de cada um.”(O Livro dos Espíritos, 2ª Parte, capitulo 1, Questões 89 e 92.)




Como foi dito por Kardec, “Cada Espírito é uma unidade indivisível, mas cada um pode lançar seus pensamentos para diversos lados (...) Dá-se com eles o que se dá com uma centelha, que projeta longe a sua claridade e pode ser percebida de todos os pontos do horizonte; ou, ainda, o que se dá com um homem que, sem mudar de lugar e sem se fracionar, transmite ordens, sinais e movimento a diferentes pontos”, deste modo, o pensamento se irradia a distâncias ilimitadas, porém, como vivemos numa realidade material, nos limitamos às percepções físicas, e isso nos restringe a compreender somente alguns metros desse pensamento.

Um espírito mais evoluído[i] conseguirá compreender o pensamento em maior extensão. Seria o mesmo que observar a terra da lua, os continentes perderiam suas delimitações, e passariam a ser um grande todo. Acontece o mesmo com o nosso pensamento. Os 5 sentidos nos fazem acreditar que ele é fragmentário, personalizado às nossas limitações, e que o outro deve sempre se adequar a quem somos.

“O pensamento é, sem dúvida, força criadora de nossa própria alma e, por isto mesmo, é a continuação de nós mesmos. Através dele, atuamos no meio em que vivemos e agimos, estabelecendo o padrão de nossa influência, no bem ou no mal.“ [ii].

Enquanto encarnados, vivenciamos um grande dilema – até que ponto o que pensamos, o que tomamos como verdade, ou o que acreditamos serem opiniões nossas, são de fato, produções pessoais? Asseveram os espíritos, que “Quando um pensamento vos é sugerido, tendes a impressão de que alguém vos fala. Geralmente, os pensamentos próprios são os que acodem em primeiro lugar. Mas, afinal, não vos é de grande interesse estabelecer essa distinção. Muitas vezes, é útil que não saibais fazê-la. Não a fazendo, obra o homem com mais liberdade. Se se decide pelo bem, é voluntariamente que o pratica; se toma o mau caminho, maior será a sua responsabilidade.” [iii]

Essa é uma problemática que não diz respeito apenas aos médiuns ostensivos, e aos trabalhos mediúnicos, mas todos os que aqui estão encarnados podem perceber essas influenciações de pensamentos. Quantos de nós já não acreditou que, para se enquadrar em algum grupo ou conquistar algum espaço na sociedade, teríamos que passar a testemunhar algum pensamento que não fosse o nosso? Vivemos em um momento onde precisamos definir e defender qual o pensamento que adotamos, se gostamos de A ou B, se queremos que a opinião pública de um lado ou do outro seja absoluta e se torne prevalecente, se queremos morar com nosso pai ou nossa mãe, se é melhor comprar uma casa ou aluga-la, se já é hora de trocar de carro, ou continuar com o seminovo. A quantidade de pensamentos que nos influenciam é enorme, mas nunca perguntamos se já não é hora de combate-los.

“Esta influência é de todos os instantes e mesmo os que não se ocupam com os Espíritos, ou até não creem neles, estão expostos a sofrê-la, como os outros e mesmo mais do que os outros, porque não têm com que a contrabalancem.” (...)”A quantos atos não é o homem impelido, para desgraça sua, e que teria evitado, se dispusesse de um meio de esclarecer-se! Os incrédulos não imaginam enunciar uma verdade, quando dizem de um homem que se transvia obstinadamente: ‘É o seu mau gênio que o impele à própria perda.’ Assim, o conhecimento do Espiritismo, longe de facilitar o predomínio dos maus Espíritos, há de ter como resultado, em tempo mais ou menos próximo, e quando se achar propagado, destruir esse predomínio, dando a cada um os meios de se pôr em guarda contra as sugestões deles. Aquele então que sucumbir só de si terá que se queixar.” [iv]

O grande objetivo da reforma de pensamentos proposta pela doutrina espírita, era e é, justamente, a necessidade eminente de nos conhecermos, de maneira integral, e sem martírios, acessando conteúdos até então ignorados, e/ou negligenciados, para romper o vínculo ”vítima-algoz”, que nos faça despertar o senso de que coabitamos um planeta, e que cada pensamento nosso, e cada ação nossa, repercute em todas as individualidades deste planeta. Neste descortinar de mentes, foi dito pelos Espíritos à Kardec, que o homem, em sua marcha ascensional, precisaria progredir em dois aspectos – na inteligência e na moral, onde o progresso moral “Decorre deste, o progresso intelectual, mas nem sempre o segue imediatamente. Onde o progresso intelectual engendraria o progresso moral, fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos. O progresso completo constitui o objetivo. Os povos, porém, como os indivíduos, só passo a passo o atingem. Enquanto não se lhes haja desenvolvido o senso moral, pode mesmo acontecer que se sirvam da inteligência para a prática do mal. A moral e a inteligência são duas forças que só com o tempo chegam a equilibrar-se.” [v]

A partir do momento que vamos percebendo nossas limitações e reconhecendo nossa necessidade de transformação, passamos a usufruir da possibilidade de captar de forma intuitiva porções menos customizadas dos pensamentos emanados ao nosso redor. Pois, “Somente o progresso moral pode assegurar aos homens a felicidade na Terra, refreando as paixões más; somente esse progresso pode fazer que entre os homens reinem a concórdia, a paz, a fraternidade. Será ele que deitará por terra as barreiras que separam os povos, que fará caiam os preconceitos de casta e se calem os antagonismos de seitas, ensinando os homens a se considerarem irmãos que têm por dever auxiliarem-se mutuamente e não destinados a viver à custa uns dos outros. Será ainda o progresso moral que, secundado então pelo da inteligência, confundirá os homens numa mesma crença fundada nas verdades eternas, não sujeitas a controvérsias e, em consequência, aceitáveis por todos. A unidade de crença será o laço mais forte, o fundamento mais sólido da fraternidade universal, obstada, desde todos os tempos pelos antagonismos religiosos que dividem os povos e as famílias, que fazem sejam uns, os dissidentes, vistos, pelos outros, como inimigos a serem evitados, combatidos, exterminados, em vez de irmãos a serem amados.” [vi]

Esse é o nosso desafio enquanto seres imortais, experienciando existências materiais – estar nela para poder encontrar caminhos que nos impulsionem à frente, aos destinos estabelecidos na nossa criação.






[i]                 A classificação dos Espíritos se baseia no grau de adiantamento deles, nas qualidades que já adquiriram e nas imperfeições de que ainda terão de despojar-se. Essa classificação, aliás, nada tem de absoluta. Apenas no seu conjunto cada categoria apresenta caráter definido. De um grau a outro a transição é insensível, nos limites os matizes se apagam, como nos reinos da Natureza, como nas cores do arco-íris, ou, também, como nos diferentes períodos da vida do homem. Podem, pois, formar-se maior ou menor número de classes, conforme o ponto de vista donde se considere a questão. Dá-se aqui o que se dá com todos os sistemas de classificação científica, que podem ser mais ou menos completos, mais ou menos racionais, mais ou menos cômodos para a compreensão. Sejam, porém, quais forem, em nada alteram o fundo da ciência. Assim, é natural que inquiridos sobre este ponto, hajam os Espíritos divergido quanto ao número das categorias, sem que isso tenha nenhuma consequência. Entretanto, não faltou quem se agarrasse a esta contradição aparente, sem refletir que os Espíritos nenhuma importância ligam ao que é puramente convencional. Para eles, o pensamento é tudo. Deixam-nos a nós a forma, a escolha dos termos, as classificações, numa palavra, os sistemas. (Questão 100 de O Livro dos Espíritos, 2ª Parte, Capítulo 1).
[ii]                 LibertaçãoAndré Luiz por Francisco Cândido Xavier, pag. 218.
[iii]                Questão 461 de O Livro dos Espíritos, 2ª Parte, Capítulo 9.
[iv]                Questão 244 de O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Capítulo 23.
[vi]                Item 19 de A Gênese, Capítulo 18.