quarta-feira, 14 de junho de 2017

Envelhecer

Por Tiago Navarro

É chegado o grande momento áureo, o momento da completude física e social, o tempo que comumente chamamos “melhor idade”. A época da vida que acreditamos ser de repouso físico, o descanso merecido de duras lutas travadas por décadas. E o momento em que trocaremos de lugar com nossos filhos.

Após o tempo do plantio, há o momento da colheita. Para algumas culturas de subsistência, esse período sofre variações, mas o que há de mais concreto, é o efeito desta causa, o que se planta há de se colher. A colheita, por fim, é uma obrigação a quem plantou, inexorável lei natural, imutável em sua essência.

Como nossa percepção do mundo se torna mais aguçada quando utilizamos de ferramentas comparativas, temos ao nosso dispor as parábolas agrícolas do mestre nazareno, bem como os arquétipos linguísticos bastante utilizado pelos pensadores. Nessas duas estruturas de ensinamento, compreensão e estruturações lógicas, podemos utilizar ao nosso proveito para entendermos a relação filial para com os pais idosos.

Estes pais que em outrora dedicaram todas as suas forças, todo seu tempo, e se privaram de todas as demais possibilidades, para nutrirem suas crias, não só com o leite materno, no caso das mães, como também com a nutrição espiritual, dedicando o máximo esforço para contribuírem com o desenvolvimento ético-moral, com ensinamentos louváveis para esses pequenos seres em construção.

Nos acostumamos a ver em nossos pais, seres fortes, aguerridos, e com poderes a nós desconhecidos. Normal enquanto nossa visão se limita a necessidade de preenchimento de nossas necessidades. Porém, na velhice, essa relação de subsistência se inverte, nossos pais, agora são os portadores da necessidade de serem nutridos. Não só a nutrição alimentar, mas, com a nutrição mais importante que foi imposta aos seres humanos - a nutrição afetiva. Todos nós precisamos de afeto e atenção, não há de se entender que seja a atenção de visitas periódicas, que mais abrandam a culpa do abandono, do que a dignificação desde ser que cedeu a própria vida para permitir que as nossas vidas se desenvolvessem.

Sim, as nossas “crianças” idosas, precisam de muito afeto, não por uma simples compensação, mas, por se encontrarem em uma situação bastante peculiar – é chegada a hora da perda de suas forças físicas, da perda do papel de importância na vida de seus filhos, da limitação de suas ações e autonomias. Se não nos preocuparmos com eles neste momento, provavelmente será muito tarde, quando eles já não estiverem entre nós. Por isso irmãos, vamos fazer o máximo que estiver ao nosso alcance, amando-os de todo o nosso coração, e com o amadurecimento emocional verdadeiro, esquecendo magoas e ingratidões, pois, muitas das vezes, foram fruto de nossos desejos de termos pais, que não correspondiam com nossa realidade.

Lembremos, “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine. ”











segunda-feira, 5 de junho de 2017

Inquietar-se pela mudança

Por Tiago Navarro

De forma habitual, buscamos a segurança em todas as instâncias de nossas vidas. Segurança financeira, afetiva, física e espiritual. Essa busca é válida quando é fundamentada na necessidade de nos mover, para aperfeiçoarmos valores que consideramos frágeis ou desnecessários. Porém, em alguns casos, nos apegamos a essa segurança pelo simples fato de temermos o que virá após essa transformação.

Um exemplo desse processo é a busca por uma melhor qualidade de vida. Temos em nossa sociedade alguns institutos catedráticos que dedicam horas em pesquisas, na busca de normatizar o que seria a qualidade de vida necessária a cada um de nós. A partir desse padrão pré-estabelecido, partirmos para atingir esta meta almejada. Dedicamos horas e esforços até que, quase invariavelmente, chegamos à conclusão de que ficou faltando algo ao final do percurso.

Essa lacuna quase sempre é preenchida por um outro esforço, ainda mais árduo, e muito mais recompensador. Nesta década, surgiu um movimento denominado "Minimalismo", onde a base filosófica estabelece o uso consciente dos bens de consumo, se desapegar de todo e qualquer bem que não tenha serventia, como por exemplo, móveis, roupas, utensílios domésticos, que em 3 meses não tiveram um uso considerável; ou ainda, possuir carros que atendam a necessidade de locomoção e não para definir status social.

Nas passagens neotestamentárias, encontramos recorrentemente a figura dos Fariseus e Saduceus confrontando Jesus, porque consideravam um perigo os ensinos do nazareno. Podemos, a título didático, atualizar as personagens dessas passagens, onde os Fariseus e os Saduceus seriam, respectivamente, os políticos e grandes empresários, ditando regras, impondo metas, alimentando disputas de poder, e levando a sociedade a trocar seus direitos por deveres, impedindo que o povo hebreu pudesse exercer a liberdade de escolha e praticar a força do querer; e do outro lado, Jesus seria o "minimalista", propondo ao seu povo um despertar sobre a necessidade de acumular bens, repensar a importância do ter em detrimento do ser, trazendo um convite ao desapego da matéria.

Esse é um típico movimento que nos chama a atenção para o modelo econômico, de consumo, e de convivência no planeta; a repensarmos o quanto estamos dando importância à necessidade de termos em detrimento de sermos. A experiência de nos humanizar – informações espirituais, ainda estamos iniciando o processo de nos humanizar, no aperfeiçoamento dos instintos em emoções e das sensações em sentimentos – é feita de experimentações, reflexões, e retorno às experimentações. Quando, em algum momento da nossa vida, sentimos a necessidade de tentar entender o que significa este vazio que sentimos, será um belo passo para compreender para onde estamos a trilhar.

Estamos em constante trânsito; sempre nos deslocando de um ponto a outro, de um estado a outro, faz parte do processo de amadurecimento mental, espiritual. E justamente neste processo de transição, somos convidados a pensar o quanto é primaz trocar o porvir pela segurança conquistada. Não proponho dizer "sim" a tudo que nos chega, não. Proponho uma postura espírita, de fato e ato. Do que adianta tanto estudo e tanta palestra, se não somos capazes de adquirirmos autonomia, poder de introjeção e decisão para produzirmos novos valores, que nos habilitará a escolher entre a esperança de atingir metas através de valores que ainda não possuímos e, em contrapartida, a fé de atingir as mesas metas através de valores que já temos noção possuir.

Toda vez que um mentor, um guia, ou um dirigente nos diz que é indispensável estudarmos, na verdade, não é um pedido para nos tornarmos intelectuais, catedráticos ou esnobes pensadores espíritas; na realidade, o desejo deles é que possamos descortinar nossas mentes, aclarando nossas ideias e pensamentos para uma visão generalista e abrangente, olvidando a extensão universal, possibilitando ver o outro como nos vemos, e que esse olhar interno seja de amor em movimento, indulgência e benevolência.




segunda-feira, 22 de maio de 2017

Como falar ou o que falar para alguém que já perdeu toda a perspectiva de ser, humano?


Por Tiago Navarro

Outro dia me fizeram esta pergunta, e confesso que não soube o que responder; pensei em várias coisas, analisei vários aspectos, mas nada julguei coerente para aquela situação. Primeiro, o contexto da indagação – quando a outra pessoa tem uma forma de pensar próxima da minha, ou quando possui um credo semelhante ao meu, com certeza é extremamente favorável dar-lhe algum consolo; segundo, e não menos importante, é bem provável que a pessoa não quisesse um aconselhamento, talvez quisesse apenas ser escutada.

Achei por bem considerar a segunda possibilidade – a pessoa queria ser ouvida. Tenho notado a crescente quantidade de pessoas que estão ansiando por “ouvidos de ouvir”, saca, aquele “ombro amigo” de fato, com todas as letras, que não questione as nossas resoluções, nem diminua nossas autorregulações. Deve ser por isso que nas rodas de amigos, nas conversas informais nas mesas de bares, e até nos “hoje vai chover” dos elevadores, 2/3 das pessoas comentem estarem frequentando consultórios de psicanalistas, psicoterapeutas, terapeutas, ashrams budistas e/ou hinduístas, casas espiritas, igrejas das mais diversas denominações ou até mesmo compartilhando suas vivências com amigos das redes sociais, ou aquelas páginas de buscadores/despertadores do Instagram, enfim, qualquer meio que possibilite alguma abertura para atender essa demanda.

Voltando à questão do contexto, na hora pensei no caso das pessoas que vivenciam terríveis humilhações no ambiente de trabalho, que sofrem verdadeiras degradações morais por parte de seus patrões, e que, em vários momentos não recebem qualquer tipo de suporte para perceber a situação, ou para se desvencilhar dessas ocorrências; também pensei nos casos de relacionamentos abusivos, onde a humilhação por uma presunção de superioridade, de gênero, de condição financeira, de crença religiosa, ou qualquer outra identificação limitante, tem uma ocorrência assustadora, e quase sempre com desfechos aterrorizantes; quando não por relações mal construídas, por relações que se encontram mal “regulamentadas” ou com percepções distorcidas entre os envolvidos – onde um acredita estar em um relacionamento, ou algo que se aparente como tal, e o outro acredita não estar integrando nenhum tipo de relacionamento; é, as vezes, difícil termos esta consciência de como as coisas são percebidas pelo outro; e com isso, nos conduzimos, e conduzimos as outras pessoas à situações, de um todo indesejável.

Sim, não acredito que coisas assim sejam totalmente premeditadas; acredito que são crenças, ou percepções um tanto quanto limitadas na abrangência dos fatos. Seria algo, do tipo, a minha visão de mim mesmo está confinada a olhar a minha rua pela janela da minha casa, e por isso, eu acredito que isto é a totalidade do que posso entender, através dos meus cinco sentidos, a minha percepção do todo. Então, um dia, recebo um convite para sair de casa, e então percebo que pertenço a algo chamada “rua”, a algo chamado “bairro”, e se tiver muita sorte consigo descobrir que as ruas e bairros fazem parte de algo ainda maior – “a cidade”. Enquanto me mantiver circunscrito à essa visão pequena do meu ser, tratarei o próximo da única maneira que conheço, negando a existência de outras ideias, visões, fatos, relatos, e só aceitando o que me é tangível, real e verdadeiro.

Portanto, se pudesse responder agora, mesmo atrasado, lhe diria isso:
O momento pode ser difícil, o fardo da situação pode ser extremamente pesado, mas saiba, que ainda assim, há um caminho para sair desse labirinto.
Como quem te agride, te agride por ainda ter uma visão limitada de si mesmo, você tem se agredido por – inconscientemente – compartilhar da mesma cegueira (mesmo te incomodando muito sofrer todo esse sofrimento).
No momento que você perceber que – o que você é ou que você acredita estar destinada vir a ser – não é isso (a sensação de não ser mais humano), ou que esta pessoa que você tem visto em frente ao espelho ao longo de todo esse tempo, não te representa, é sinal que você recebeu o convite para dar uma volta em torno da sua situação.
Você perceberá que há outras coisas ao seu redor, outras possibilidades, outras pessoas, outras circunstancias, e que tudo isso possui belezas próprias, e momentos justos de se manifestarem. 
E por fim, deixo contigo um trecho de uma mensagem de Emmanuel por Chico Xavier,

“... guardemos a certeza, pelas próprias dificuldades já superadas, que não há mal que dure para sempre. ”



terça-feira, 2 de maio de 2017

INFLUÊNCIAS DE PENSAMENTOS

Por Tiago Navarro

“Quando o pensamento está em alguma parte, a alma também aí está, pois que é a alma quem pensa. O pensamento é um atributo.” (...)”Não pode haver divisão de um mesmo Espírito; mas cada um é um centro que irradia para diversos lados. Isso é que faz parecer estar um Espírito em muitos lugares ao mesmo tempo. Vês o Sol? É um somente. No entanto, irradia em todos os sentidos e leva muito longe os seus raios. Contudo, não se divide.” (...)”Essa força depende do grau de pureza de cada um.”(O Livro dos Espíritos, 2ª Parte, capitulo 1, Questões 89 e 92.)




Como foi dito por Kardec, “Cada Espírito é uma unidade indivisível, mas cada um pode lançar seus pensamentos para diversos lados (...) Dá-se com eles o que se dá com uma centelha, que projeta longe a sua claridade e pode ser percebida de todos os pontos do horizonte; ou, ainda, o que se dá com um homem que, sem mudar de lugar e sem se fracionar, transmite ordens, sinais e movimento a diferentes pontos”, deste modo, o pensamento se irradia a distâncias ilimitadas, porém, como vivemos numa realidade material, nos limitamos às percepções físicas, e isso nos restringe a compreender somente alguns metros desse pensamento.

Um espírito mais evoluído[i] conseguirá compreender o pensamento em maior extensão. Seria o mesmo que observar a terra da lua, os continentes perderiam suas delimitações, e passariam a ser um grande todo. Acontece o mesmo com o nosso pensamento. Os 5 sentidos nos fazem acreditar que ele é fragmentário, personalizado às nossas limitações, e que o outro deve sempre se adequar a quem somos.

“O pensamento é, sem dúvida, força criadora de nossa própria alma e, por isto mesmo, é a continuação de nós mesmos. Através dele, atuamos no meio em que vivemos e agimos, estabelecendo o padrão de nossa influência, no bem ou no mal.“ [ii].

Enquanto encarnados, vivenciamos um grande dilema – até que ponto o que pensamos, o que tomamos como verdade, ou o que acreditamos serem opiniões nossas, são de fato, produções pessoais? Asseveram os espíritos, que “Quando um pensamento vos é sugerido, tendes a impressão de que alguém vos fala. Geralmente, os pensamentos próprios são os que acodem em primeiro lugar. Mas, afinal, não vos é de grande interesse estabelecer essa distinção. Muitas vezes, é útil que não saibais fazê-la. Não a fazendo, obra o homem com mais liberdade. Se se decide pelo bem, é voluntariamente que o pratica; se toma o mau caminho, maior será a sua responsabilidade.” [iii]

Essa é uma problemática que não diz respeito apenas aos médiuns ostensivos, e aos trabalhos mediúnicos, mas todos os que aqui estão encarnados podem perceber essas influenciações de pensamentos. Quantos de nós já não acreditou que, para se enquadrar em algum grupo ou conquistar algum espaço na sociedade, teríamos que passar a testemunhar algum pensamento que não fosse o nosso? Vivemos em um momento onde precisamos definir e defender qual o pensamento que adotamos, se gostamos de A ou B, se queremos que a opinião pública de um lado ou do outro seja absoluta e se torne prevalecente, se queremos morar com nosso pai ou nossa mãe, se é melhor comprar uma casa ou aluga-la, se já é hora de trocar de carro, ou continuar com o seminovo. A quantidade de pensamentos que nos influenciam é enorme, mas nunca perguntamos se já não é hora de combate-los.

“Esta influência é de todos os instantes e mesmo os que não se ocupam com os Espíritos, ou até não creem neles, estão expostos a sofrê-la, como os outros e mesmo mais do que os outros, porque não têm com que a contrabalancem.” (...)”A quantos atos não é o homem impelido, para desgraça sua, e que teria evitado, se dispusesse de um meio de esclarecer-se! Os incrédulos não imaginam enunciar uma verdade, quando dizem de um homem que se transvia obstinadamente: ‘É o seu mau gênio que o impele à própria perda.’ Assim, o conhecimento do Espiritismo, longe de facilitar o predomínio dos maus Espíritos, há de ter como resultado, em tempo mais ou menos próximo, e quando se achar propagado, destruir esse predomínio, dando a cada um os meios de se pôr em guarda contra as sugestões deles. Aquele então que sucumbir só de si terá que se queixar.” [iv]

O grande objetivo da reforma de pensamentos proposta pela doutrina espírita, era e é, justamente, a necessidade eminente de nos conhecermos, de maneira integral, e sem martírios, acessando conteúdos até então ignorados, e/ou negligenciados, para romper o vínculo ”vítima-algoz”, que nos faça despertar o senso de que coabitamos um planeta, e que cada pensamento nosso, e cada ação nossa, repercute em todas as individualidades deste planeta. Neste descortinar de mentes, foi dito pelos Espíritos à Kardec, que o homem, em sua marcha ascensional, precisaria progredir em dois aspectos – na inteligência e na moral, onde o progresso moral “Decorre deste, o progresso intelectual, mas nem sempre o segue imediatamente. Onde o progresso intelectual engendraria o progresso moral, fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos. O progresso completo constitui o objetivo. Os povos, porém, como os indivíduos, só passo a passo o atingem. Enquanto não se lhes haja desenvolvido o senso moral, pode mesmo acontecer que se sirvam da inteligência para a prática do mal. A moral e a inteligência são duas forças que só com o tempo chegam a equilibrar-se.” [v]

A partir do momento que vamos percebendo nossas limitações e reconhecendo nossa necessidade de transformação, passamos a usufruir da possibilidade de captar de forma intuitiva porções menos customizadas dos pensamentos emanados ao nosso redor. Pois, “Somente o progresso moral pode assegurar aos homens a felicidade na Terra, refreando as paixões más; somente esse progresso pode fazer que entre os homens reinem a concórdia, a paz, a fraternidade. Será ele que deitará por terra as barreiras que separam os povos, que fará caiam os preconceitos de casta e se calem os antagonismos de seitas, ensinando os homens a se considerarem irmãos que têm por dever auxiliarem-se mutuamente e não destinados a viver à custa uns dos outros. Será ainda o progresso moral que, secundado então pelo da inteligência, confundirá os homens numa mesma crença fundada nas verdades eternas, não sujeitas a controvérsias e, em consequência, aceitáveis por todos. A unidade de crença será o laço mais forte, o fundamento mais sólido da fraternidade universal, obstada, desde todos os tempos pelos antagonismos religiosos que dividem os povos e as famílias, que fazem sejam uns, os dissidentes, vistos, pelos outros, como inimigos a serem evitados, combatidos, exterminados, em vez de irmãos a serem amados.” [vi]

Esse é o nosso desafio enquanto seres imortais, experienciando existências materiais – estar nela para poder encontrar caminhos que nos impulsionem à frente, aos destinos estabelecidos na nossa criação.






[i]                 A classificação dos Espíritos se baseia no grau de adiantamento deles, nas qualidades que já adquiriram e nas imperfeições de que ainda terão de despojar-se. Essa classificação, aliás, nada tem de absoluta. Apenas no seu conjunto cada categoria apresenta caráter definido. De um grau a outro a transição é insensível, nos limites os matizes se apagam, como nos reinos da Natureza, como nas cores do arco-íris, ou, também, como nos diferentes períodos da vida do homem. Podem, pois, formar-se maior ou menor número de classes, conforme o ponto de vista donde se considere a questão. Dá-se aqui o que se dá com todos os sistemas de classificação científica, que podem ser mais ou menos completos, mais ou menos racionais, mais ou menos cômodos para a compreensão. Sejam, porém, quais forem, em nada alteram o fundo da ciência. Assim, é natural que inquiridos sobre este ponto, hajam os Espíritos divergido quanto ao número das categorias, sem que isso tenha nenhuma consequência. Entretanto, não faltou quem se agarrasse a esta contradição aparente, sem refletir que os Espíritos nenhuma importância ligam ao que é puramente convencional. Para eles, o pensamento é tudo. Deixam-nos a nós a forma, a escolha dos termos, as classificações, numa palavra, os sistemas. (Questão 100 de O Livro dos Espíritos, 2ª Parte, Capítulo 1).
[ii]                 LibertaçãoAndré Luiz por Francisco Cândido Xavier, pag. 218.
[iii]                Questão 461 de O Livro dos Espíritos, 2ª Parte, Capítulo 9.
[iv]                Questão 244 de O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Capítulo 23.
[vi]                Item 19 de A Gênese, Capítulo 18.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Comportamento Espírita: Responsabilidade e Mudança

Por Miréia Carvalho, SEEB


Responsabilidade e Mudança. Esta é a chave da questão. Todo trabalho que envolve estas duas coisas, separa o discurso da prática no Espiritismo. Temos um discurso de liberdade, mas não temos autonomia. Como dizia Abel Mendonça: "da palavra à ação e do ensino ao exemplo tem uma distância grande". Por que? 

Falamos muito na necessidade pessoal de liberdade e de independência, mas quando esse poder nos é dado ficamos congelados de medo e às vezes preferimos manter-nos vítimas das situações. Mudar implica assumir a responsabilidade das nossas vidas e reescrever a nossa história no papel da personagem principal. No entanto, é mais fácil continuarmos frágeis, vítimas e indefesas para não mudarmos.

Vianna de Carvalho nos fala que "quando o Espiritismo penetra na mente e no sentimento do ser humano, opera-se-lhe uma natural transformação intelecto-moral para melhor, propondo-lhe radical alteração no comportamento que enseja a conquista de metas elevadas e libertadoras". 

Parece estar faltando estudo para esclarecer as mentes que desejam ser Espíritas, ou, somos eternos distraídos, talvez irresponsáveis?

Quando o Espiritismo encontra guarida no indivíduo, logo se lhe despertam os conceitos de responsabilidade, coragem à mudança e fidelidade à nova conquista – ser Espírita. Logo, me parece que faltam os três – estudo, atenção aos princípios básicos da doutrina espírita e fidelidades aos seus princípios.

Diante disto, Viana de Carvalho afirma que "muitos adeptos da doutrina espírita, que permanecem na irresponsabilidade do comportamento e na falta de coragem de mudar, arrostam as consequências da sua conversão ao Espiritismo, demorando-se na dubiedade, nas incertezas que procuram não esclarecer, receando os impositivos da fidelidade pessoal à doutrina, instalando-se as justificativas infantis para prosseguirem sem alteração, esperando que os Espíritos realizem as tarefas que lhes dizem respeito".

Desta forma, evite justificativas infantis após os insucessos, levantando-se dos erros e recomece as atividades tantas vezes quanto for necessário. Tenha a coragem para o auto enfrentamento, libertando-se dos inimigos de fora para vencer àqueles de natureza íntima, sempre disposto a servir e a amar. 

Amigo, tenha responsabilidade na conduta, coragem para mudar e fidelidade aos princípios espiritistas.

Sem qualquer dúvida, a adesão ao Espiritismo impõe à consciência responsabilidade e mudança no pensar, sentir e agir, para transformar-se, verdadeiramente, em um Espírita.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Ser Espirita é difícil?


Por Miréia Carvalho, SEEB


Ser Espirita é difícil?

Parece que sim.

Quando estamos sofrendo buscamos pessoas, lugares, religiões para nos amparar – temos muito medo. O espiritismo por ser esclarecedor e consolador, é um lugar ótimo, até que nos deparamos com o trabalho, a mudança e as responsabilidades.

Quando voltamos à normalidade, dos momentos sem dores, esquecemos pessoas, lugares e a religião que nos fez tão bem. O discurso proferido é o de que nós somos responsáveis por nós mesmos e ninguém poderá nos fazer feliz. Que dilema...

O tempo todo estamos driblando a nós mesmos. Quer tal reconhecermos que a razão de nossas vidas somos nós mesmos, e que não poderemos viver sozinhos e sem uma religiosidade?

Leon Dénis nos fala que "Deus em sua infinita misericórdia corrige o transgressor de suas Leis através dos sofrimentos necessários e ao mesmo tempo permite a renovação, dando oportunidade de realizar o bem, às vezes sem o saber, resultando em benefícios para si próprios e para a sociedade. Então o sofrimento é real. Não podemos fugir dele, faz parte da Lei do Progresso". Você concorda?

O problema é que somos imediatistas e queremos resultados rápidos, felicidade rápida, saúde perfeita e eterna sem esforços, sem nos vermos, sem nos responsabilizarmos, sem interagirmos com pessoas, sejam fáceis ou difíceis.

Uma forma de fugir da responsabilidade do trabalho é buscar se comparar com o problema dos outros e pensar: "Ah, não é só eu, o outro também tem problemas..." Filhos problemáticos, doença em família, problema de dinheiro, casamentos infelizes e aí... estaciona. Abandona o trabalho espírita, em busca de ilusões.

Hoje somos Espíritos intelectuais, mas com grande dificuldade de construirmos padrões morais em nossas vidas pelos hábitos e vícios de vidas pregressas. Daí o problema da não felicidade. Porque o conceito de não felicidade está subordinado a satisfação de nossos desejos como nos fala Simonetti: "A felicidade não está subordinada à satisfação dos nossos desejos diante da vida e, sim, ao desejo de entender o que a vida espera de nós." Tudo na vida é resultado de exercício, de mudança na forma de pensar e agir.

Portanto, podemos ser felizes, porém a felicidade e a harmonia que buscamos, seja com a natureza, com os animais, com a família, ou na religião abraçada, consiste em fazer os outros felizes – ALTRUÍSMO –, e não em querer que os outros nos façam felizes – EGOÍSMO. Além de negligenciarmos a máxima do comportamento crístico: "Só faça aos outros o que gostaríeis que fosse feito a você".

Por isso é tão difícil ser Espírita. Vivenciar está doutrina com amor, humildade e perseverança.

Como dizia Kardec: "Trabalho, Solidariedade e Tolerância".

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Adentrando o Reino dos Céus


Por Tiago Navarro 
“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus.” [i];
 “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos Céus.” [ii];
“Disse, então, Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no Reino dos Céus. E outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus.” [iii];
 “Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que fechais aos homens o Reino dos Céus; e nem vós entrais, nem deixais entrar aos que estão entrando.” [iv]

Quando nos deparamos com essas falas de Jesus, no primeiro momento, nos causa um certo estranhamento, pois, a entrada no Reino dos Céus, se desenha como sendo em um determinado local, de dimensões geográficas. Entrar no Reino dos Céus, nesta ótica, tem a mesma imagem de se entrar num reino da idade média – precisa-se ultrapassar o pórtico, e ter a permissão do senhor para adentrar aquele local protegido do tumulto externo e de todas as mazelas e violências.

Sabemos que jesus estava a trazer um ensinamento espiritual, e neste contexto, ele se valia de valores e conceitos materiais, de conhecimento amplo da população, para inserir os novos ensinamentos, sem ferir e derrogar as “leis” já estabelecidas na sociedade. Este é o fato do porquê, no primeiro contato com essas palavras, sejamos induzidos a acreditar, que ele falava de um Reino dos Céus geográfico. Para melhor compreender o Reino dos Céus, preciso é, não mais “ver” os ensinamentos do mestre, com os “olhos” da matéria. Naquele tempo, Jesus avisou-nos que mais tarde viria o Espirito da Verdade, “Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós”.[v]

No Livro dos Espíritos, mas especificamente nos Capítulos 3 e 4, encontramos respostas acerca do retorno da vida corpórea a vida espiritual e da pluralidade das existências, possibilitando a compreensão do sentido da “entrada no Reino dos Céus”. Como a vida no plano espiritual (ou em quais reinos habitaremos) será determinada pelas nossas ações na vida física, devemos nos empenhar em adquirir credenciais morais para termos acessos a reinos menos ligados aos costumes terrenos.

Jesus em vários momentos utilizou a imagem do grão de uma semente para iniciar a fala da entrada no Reino dos Céus.
“E falou-lhe de muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear. E, quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves e comeram-na; e outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda. Mas, vindo o sol, queimou-se e secou-se, porque não tinha raiz. E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na. E outra caiu em boa terra e deu fruto: um, a cem, outro, a sessenta, e outro, a trinta. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.” [vi];
“Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O Reino dos Céus é semelhante ao homem que semeia boa semente no seu campo; mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou o joio no meio do trigo, e retirou-se. E, quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o joio. E os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe: Senhor, não semeaste tu no teu campo, boa semente? Por que tem, então, joio? E ele lhes disse: Um inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres, pois, que vamos arrancá-lo? Porém ele lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: colhei primeiro o joio e atai-o em molhos para o queimar; mas o trigo, ajuntai-o no meu celeiro.” [vii];
Outra parábola lhes propôs, dizendo: 
“O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem, pegando dele, semeou no seu campo; o qual é realmente a menor de todas as sementes; mas, crescendo, é a maior das plantas e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu e se aninham nos seus ramos.” [viii].
A semente, compreendida nestas parábolas, se apresenta em uma vida – limitada e curta – para depois morrer e renascer (em uma nova vestimenta, porém, em igual essência) como uma frondosa árvore, com vida em abundância, vida longa e repleta de possibilidades.

E como Paulo anunciou na primeira carta aos Coríntios, Jesus só ressuscitou por ter dois corpos, o material e o espiritual[ix]. Assim como todos nós, iremos morrer no plano físico, e renascer no plano espiritual ou Reino dos Céus. Mas Jesus também nos aconselhava a irmos despertando nossa consciência para nossa realidade espiritual. Deveríamos nos acostumar com o Reino dos Céus, indo até ele (o plano espiritual) através dele (o Cristo, ou o corpo espiritual) enquanto estivéssemos vivendo no corpo físico, praticando as bem-aventuranças.

As bem-aventuranças, seriam então o caminho do desapego à realidade física e objetiva do reinado da matéria. Indo nesta direção podemos tomar consciência dos nossos dons espirituais (mediunidade, ou os talentos, porções da herança que recebemos em cada nova reencarnação) e perceber que na verdade, a nossa vida de fato é a espiritual, e que a vida corporal é apenas uma etapa inicial de germinação de potências, que se repete a um determinado período de tempo.



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[i] Mateus 5:20
[ii] Mateus 7:21
[iii] Mateus 19:23-24; Marcos 10:24-25; Lucas 24:26
[iv] Mateus 23:13
[v] João 14:15-17
[vi] Mateus 13:39; Marcos 4:3-9; Lucas 8:4-8
[vii] Mateus 13:24-30
[viii] Mateus 13: 31-32; Marcos 4:30-32; Lucas 13:18-19
[ix] 1 Coríntios 15:35-58

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Ponto de mutação

Por Tiago Navarro

É chegado o dia da grande queima do Judas. Tradição antiga, que ainda perdura na atualidade. Um ritual grotesco e primitivo, que não enaltece nenhuma qualidade objetiva do ser humano, apenas, o desprezo por si mesmo.

Muitos defensores desse folclore alegam que se faz necessário condenar o traidor. Traição essa cometida há quase 2 milênios. Mas a sua pena se arrasta até hoje. Será que não já está na hora de prescrever essa pena?

No Antigo Testamento havia uma punição dessa monta: Porque sete vezes Caim será castigado; mas Lameque[i] setenta vezes sete[ii]-[iii]; onde as pessoas que não seguiam as normais sociais, praticavam atos ou atitudes dissonantes das normas vigentes eram castigados. Também percebemos punições que se arrastam por gerações seguintes, no caso especifico do pecado original[iv] – seriamos punidos eternamente pela escolha feita por Adão e Eva[v]-[vi]-[vii]. Da mesma forma que fazemos com Judas, essa postura mental já não se comporta ao estágio em que nos encontramos.

É tempo de responsabilizar em vez de punir. Quem se enquadra na condição de ter violado nossos padrões morais precisa ser responsabilizado por suas ações ou atitudes, diferente do que antes era feito, punir um grupo ou sociedade pelo ato/atitude de um.

Judas já foi responsabilizado, já cumpriu sua sentença na "corte ética", e toda e qualquer punição posterior só tem justificativa na projeção inconsciente, temos um desejo enraizado de julgar, condenar e não permitir que o outro se liberte dessa condição.

Certa vez, um compositor retratou o desejo de punição à adúltera do evangelho, e seu refrão se fez célebre, "joga pedra na Gení"[viii]. Na música ela era o "párea social", não tinha nenhuma serventia social digna, todos a usavam para aliviarem as suas necessidades existenciais, porém, quando se viram em apuros, e o código de conduta moral daquela sociedade estava a ruir, Gení surgiu como a santa redentora de todos; mas em sua ética, Gení não se permitiu corromper daquela forma vil, e mais uma vez, ela voltou a ser execrada. Somos convidados diariamente a assumir essa postura dos purificadores da "moral e bons costumes", e punir severamente todo indivíduo que reflita a nossa hipocrisia.

Essa crença de que apenas o outro é "o (a) degenerado (a) filho (a) de Eva", só demonstra que nos enxergamos dessa forma. A nossa sombra "pecadora" se manifesta invariavelmente no convívio com o outro, e isso nos assusta muito, a ponto de querermos eliminar o outro, na busca da aceitação de nós mesmos. Nos odiamos, toda vez que vemos nossa fraqueza refletida no outro. Há muito se foi cantado que "Narciso acha feio o que não é espelho"[ix], uma reflexão válida dessa nossa ânsia em só enxergar o belo que há em nós.

Nesse período de renovação, de celebrar a vida, e o amor, busquemos perdoar os Judas e as Genís que temos em nós, e que carregamos essa culpa a tanto tempo, busquemos não mais trocar o nosso amor por valores materiais como o poder, que não busquemos a redenção de nossas condutas repreensíveis apenas, quando nos for conveniente, e descartar os "páreas sociais" quando estes não nos servir mais.



[i] Lameque é um personagem bíblico do Antigo Testamento mencionado no livro de Gênesis como filho de Metusael e um dos descendentes de Caim da quinta geração deste, que teria cometido o segundo homicídio, que seria duplo:

Gênesis 4:23 - “E disse Lameque a suas mulheres Ada e Zilá: Ouvi a minha voz; vós, mulheres de Lameque, escutai as minhas palavras; porque eu matei um homem por me ferir, e um jovem por me pisar “
[ii] Gênesis 4:24;
[iii] Em Mateus 18:21-22, Jesus apresenta o ensinamento que é a antítese a essa passagem:
“Então, Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo que até sete, mas até setenta vezes sete. ”;          
[iv] Gênesis 3:11-24;
[v]  Salmos 51;
[vi] Romanos 5:12-21;
[vii] 1 Coríntios 15:22;
[viii] Chico Buarque – Gení e o Zepelim; do álbum “Opera do Malandro”, lançado em 1979;
[ix  Caetano Veloso – Sampa; do álbum “Muito - Dentro da Estrela Azulada”, lançado em 1978.